Fotografias de Benjamin Béchet / Odessa / Picturetank / Agência Olhares
As retóricas populistas que se nutrem do descontentamento e do pavor generalizado identificam inimigos e cultivam as raízes da intolerância e da xenofobia; tiram do esquecimento antigos ideais territoriais instrumentalizando um conceito que tomou um lugar cada vez maior no discurso político e nas conversas de botequim : a identidade.
Construção histórica e cultural, a identidade, como no-lo ensinam os antropólogos, é fluida, múltipla, aberta e contextual. Cada um de nós pode possuir várias delas até o infinito : uma, nenhuma e cem mil, citando Pirandello. Mas a identidade é primeiro, relacional : a definição do Nós passa pela negação do Outro. Quando caiem nas mãos de ambições políticas, as identidades cristalizam-se em regionalismo, fanatismo religioso, político ou territorial. E quando o outro é marginal ou precário, as consequências imediatas são a exclusão e a violência.
Através duma manipulação irônica da identidade, Eu sou o Ursinho Puff pretende provocar uma reflexão sobre a estigmatização do Outro, encenando os pavores e as contradição nela vinculada. Roma, a cidade onde nasceu o projeto, é um viveiro de micro-identitarismo que sempre refere-se a uma “romanidade” ou ao império romano. A cidade é o teatro duma onda de intolerância e de violência aberta contra uma parte da população que encarna essa alteridade temida e negada. Figuras marginais, trabalhadores ilegais, sem documentos … Pessoas invisíveis ou ovelhas negras: sobre essas identidades complexas e diversificadas, cola-se um rótulo que simplifica e denigre o outro.
Vestimos-los com roupas de super-heróis , ícones, celebridades conhecidas por todo o mundo globalizado. Pra se lembrar que uma pessoa nunca é o que vemos dela, mas sempre algo mais complexo, que cada identidade é parcial, que somos todos um só, nenhum e cem mil. texto : Federica Romano