Segundo a ONU, até 2050 cerca de 150 milhões de pessoas podem ser obrigadas a se deslocar por conta de mudanças climáticas. Desde 2004, os fotógrafos do coletivo francês Argos buscam as primeiras vítimas desse fenômeno para dar rostos. à essa problemática. O resultado são reportagens visionárias preparadas com engajamento de longo prazo.
Os objetivos dos trabalhos são dar voz àqueles que já sofrem as consequências dessas mudanças, iniciar um debate sobre soluções e alertar para a urgência da situação dessas populações que são ameaçadas pela elevação do nível das águas, o avanço do deserto, a intensificação dos furacões ou o derretimento das geleiras.

Stakhira district. An old woman keeps her cow on the large levy bank. In just a few decades global warming has changed the countryside of her youth.
Para acessar ao reportagens inteiros que compõem “Refugiados Climaticos” – ineditos no Brasil – favor entrar em contato : desk@agenciaolhares.com
Criado em 2001, o coletivo Argos reúne 11 fotógrafos e jornalistas dedicados a documentar as mutações ambientais e seus decorrentes desafios sociais.
Para os membros do coletivo, o ser humano é o ponto central. . O trabalho deles reflete essa visão no tempo de pesquisa, no trabalho de campo e na redação das reportagens. E a decisão de sair pelo mundo, desde 2004, em busca das primeiras vitimas do aquecimento global para dar um rosto à essa problemática e recolher testemunhos e relatos.
Durante cinco anos, os fotógrafos e jornalistas do Argos acompanharam o cotidiano dos refugiados do clima, mulheres e homens forçados ao exílio por causa do aquecimento global. No Alaska, vivenciaram o problema do derretimento dos solos árticos. Nas ilhas Tuvalu, Maldivas e Halligen, testemunharam a elevação do nível dos mares. No Chade e na China, viram habitantes invadidos pela desertificação. Também foram a Bangladesh, Nepal e Estados Unidos, sempre documentando o sofrimento que as alterações climáticas causam em povos espalhados pelo globo.
Na 15ª Conferência da ONU sobre Clima (COP15), em Copenhague, o coletivo Argos realizou a exposição “Avec les réfugiés climatiques”, pedagógica e didática, destinada a todos os públicos. O projeto tinha como objetivo alertar para o que poderia desaparecer com o aquecimento global, sensibilizando o público e mostrando que ainda é possível agir para preservar o futuro.
A Agência Olhares pretende trazer esta exposição no Brasil, mais noticias em breve…
Nove escalas pelo mundo para despertar as consciências sobre a amplitude dos movimentos migratórios que estão por vir e a consequente perda de identidades culturais. Em cada reportagem, a busca de comprovação científica através de consulta a peritos, pesquisa e trabalho de documentação detalhado. O coletivo usa como fontes entidades como GIEC, AIE, ADEME, Greenpeace, AEE

The house where Mina Weyiouanna grew up, abandoned long ago, has just fallen over onto the beach. "I still remember playing dominoes with my grandfather," she says with dignity. "Then, the house was still more than a hundred yards from the shore."
A ilha de Shismaref fica no Alaska, no norte do Estreito de Behring. O aquecimento global vem provocando o degelo do permafrost onde o vilarejo foi construído. A erosão, intensificada pelo derretimento do gelo que não proteje mais o vilarejo, é de tamanhas proporções que os esquimós de Shismaref terão de realocar o seu vilarejo dentro de 15 anos.

"It's a paradox, but we love the Landuntern, Britta confides. That feeling that time has been suspended, of sweet solitude, the landscape outside your door suddenly completely different; all the houses, scattered here and there like so many little islands."
As ilhas Halligen se localizam no Mar do Norte, entre Alemanha e Dinamarca, e foram formadas por sedimentos carregados pelas marés. Inicialmente, o arquipélago contava com uma centena de ilhas mas, devido a um maremoto, hoje são apenas 10. Os 330 habitantes das ilhas vivem do turismo e da pecuária. Mas viver em Halligen é, sobretudo, uma escolha de vida, uma luta constante contra o mar: de 10 a 20 vezes por ano, quando as grandes marés se unem às tempestades, o mar se apropria do arquipélago.

With its 35.8 million cu. m. of water threatening to pour down into the valley of Khumbu, Imja, at an altitude of 5,010 m, is the most dangerous lake in Nepal.
As geleiras do Himalaya estão entre as que derretem mais rápido por causa do aquecimento global. Esse degelo acelerado do “Teto do Mundo” resulta em perigos múltiplos para os nepaleses. Dentro de um período de cinco a 10 anos, mais de 20 lagos glaciais do país vão se encher de água. Com a pressão, as barreiras naturais dos lagos vão ceder, como já aconteceu em 1985. Na ocasião, o lago da geleira Dig Tsho explodiu e uma torrente de água carregando destroços, pedras, troncos de árvores e lama levou tudo pelo caminho.

Every Spring, storms sweep sand from the Gobi Desert to Longbaoshan and then Beijing. For days on end, the Chinese capital is covered in a dense fog and experiences dangerous peaks in pollution.
Longbaoshan, vilarejo de 900 habitantes, 75 km ao noroeste de Pequim, vive ao ritmo dos ventos de areia que expulsam seus homens. Cerca de 200 moradores já migraram para Pequim em busca de emprego. A China é um dos países que mais sofre com a desertificação. Um quarto do território nacional já foi atingido e a cada ano o deserto avança mais de 2500km2.

With 90,000 people living on 1.9 sq. km., Male, the capital of the Maldives, is one of the mostly densely populated cities in the world. The hope: move 2 km away, to the artificial island of Hulhumale
Ameaçados pela elevação do nível do mar ocasionada pelo aquecimento global, os maldivianos se perguntam se farão parte dos 150 milhões de refugiados climáticos anunciados pelos cientistas internacionais para o fim do século. Será que eles vão ter de fugir para a India, o Sri Lanka, a Austrália? A solução pode estar mais perto: para suportar a superpopulação de Malé, a capital, uma ilha artificial gigantesca está sendo construída.

Dacca, suburb of Banani. The expansion of Dacca, the capital of Bangladesh, could be abruptly halted by flooding linked to global warming.
Até o final do século, milhões de moradores do Bangladesh serão forçados a deixar sua terra natal por causa do aquecimento global e suas consequências. No sudoeste, onde as pessoas já foram afetadas, a pressão está se tornando mais forte.
A quarta maior reserva de água doce da África está prestes a desaparecer. E junto com ela, a vida. Rodeado por quatro países ribeirinhos (Chade, Níger, Nigéria e Camarões), o Lago Chade perdeu em quarenta anos 90% de sua área – de 25.000 km2 para 2.500 km2. Este ano, o enfraquecimento das monções africanas é tal que o lago nem sequer chega até a fronteira da Nigéria e do Níger, privando-os do acesso à água. Como os homens não têm controle sobre a chuva, eles saem em busca de um céu cheio de nuvens… Em vão.

Funafuti atoll, Fongafale island. The tsunami which struck Asia is on everybody's mind. Whatever their temperament, most Tuvaluans associate this catastrophe with what awaits them as sea levels keep rising.
O aquecimento global ameaça diretamente o Estado de Tuvalu. Se as previsões científicas mais pessimistas se realizarem, este microestado da Polinésia, o seu povo e sua cultura singular desaparecerão em menos de um século. A humanidade se encontrará irremediavelmente empobrecida. O aquecimento global significa, também, o fim da etno-diversidade. Os tuvaleses já sabem disso.
Em 29 de agosto de 2005, o furacão Katrina devastou New Orleans. Nos dias seguintes, mais de dois terços de seus habitantes deixaram a cidade, em condições desumanas. Eles estão espalhados em todos os EUA e particularmente em Houston, onde mais de cem mil deles ainda estão instalados e onde provavelmente permanecerão. A incrível capacidade da cidade de Houston em absorver essa migração em massa e imprevista tem mascarado um fato surpreendente: esses novo-texanos que choram a sua cidade perdida são provavelmente os primeiros refugiados climáticos do continente norte-americano.
Texto & fotografias © Coletivo Argos – Tradução: Marie-Elisabeth Mompezat & Morena Madureira